Inclusão e aceitação pelos contos de fadas…

20 Maio

Nos últimos dias tenho lido bastante sobre inclusão, acessibilidade, deficiência… Confesso que o trabalho me deu o empurrão inicial, mas agora é automático, o tema já me desperta curiosidade. Tamanha curiosidade essa que tive que pegar um livro (O lobo mau no Divã – de Laura James) emprestado e há tempos guardado no armário para reler. Do que se trata? Inclusão e aceitação na sociedade por meio dos contos de fadas. Pois é – sempre as mesmas histórias contadas de modos diferentes – os contos tem papel importante na disseminação de valores, aprendizado e aceitação das crianças, ao mesmo tempo que ensinam também o que deve ser evitado. São essas mesmas histórias que mostram como as pessoas que apresentam alguma dificuldade ou diferença podem ser membros valorizados, respeitados e estimados na comunidade – infelizmente o que muita gente esquece. Acontece nos contos, acontece na vida real. Calma! Eu explico. Vou me basear nos personagens de “Alice no País das Maravilhas”, mas poderia citar vários outros exemplos: “Avatar”, “Como treinar o seu dragão”, “Peter Pan”,… Todos com personagens, de maneira ou outra, deficientes, doentes ou com certas dificuldades. O problema é que nos desenhos eles são aceitos e desempenham papeis importantes para a história, já, na vida real, nem sempre é assim – Daí entra também o fato de darmos o peso certo para cada coisa, mas isso fica para outro dia, em outro post… Apresento então os personagens conhecidos de “Alice no País das Maravilhas”, sob outras perspectivas:

A Rainha de Copas: parece governar o País das Maravilhas. O poder lhe conferido pela sua posição faz com que aterrorize os súditos, comportando-se sem nenhuma empatia e agindo de modo totalmente destrutivo. Manda pintar flores por não gostar de branco e não é raro vê-la expressando sua fúria: “Decepem esse arganaz!” “Expulsem!” “Esmaguem-no!” “Cortem a cabeça!”: Doente mental, diagnosticada com Narcisismo Situacional Adquirido – o poder subiu-lhe à cabeça, fazendo com que se sinta superior.

O Chapeleiro Maluco: Transtorno Psicótico Compartilhado (com a lebre de março). Ambos passam muito tempo junto, compartilhando as mesmas crenças delirantes. Para eles, é sempre 6h da tarde – hora do chá. Mesmo com a mesa vazia gritam para Alice que não há vagas, e em vez de lavar a louça, pulam para outros lugares limpos na mesa. E quando tentam consertar o relógio com manteiga? “Era a melhor manteiga” justifica a lebre, como se a qualidade do produto pudesse interferir no sucesso da empreitada. Também, o chapeleiro faz perguntas absurdas, para quais não existe resposta racional: “Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?”

No País das Maravilhas existe evidência do uso de drogas – como a centopéia que fuma narquilé e come cogumelos – e na questão de acessibilidade, chegar no país é quase impossível. Isso não comentando do estado de animação constante do coelho, que é muito ansioso e da loucura do cozinheiro. Alice parece ser a única personagem que não apresenta transtornos, mas da sua personalidade, mal conseguimos lembrar (ao contrário das proezas que realiza). É como o gato diz: “Todo mundo é louco no país das maravilhas”.

Pense bem e é provável que você conheça alguém com os transtornos (talvez menos acentuados) citados acima. É incrível: na vida, como na literatura, são as pessoas com imperfeições e problemas as que achamos mais interessantes, que mais nos lembramos e são elas, na maioria das vezes, que mais nos ensinam. É isso que admiro em certos contos e filmes: mostram e incluem, sem forçar. Afinal, se somos forçados a entender, será que realmente entendemos?

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10 Respostas to “Inclusão e aceitação pelos contos de fadas…”

  1. Gabriel de la Rosa 20 de Maio de 2010 às 3:01 PM #

    Gostaria de deixar uma continuação dessa reflexão, que me ocorreu lendo esse brilhante texto: Como podemos querer mudar essa visão do negativo se ouvimos desde bebês nas canções de ninar “boi da cara preta pega essa menina que tem medo de careta” ou “nana nenê que a cuca vem pegar”?? Precisamos tomar mais cuidado com a nossa educação que impõe castigos as coisas erradas!

  2. Carol Naumann 20 de Maio de 2010 às 3:14 PM #

    Bons e maus exemplos, né? É sempre assim! Imagina cantar: “atirei o pau no gato” e achar engraçadinho? É o fim! rsrs Obrigada pela presença de sempre!

  3. Junião 20 de Maio de 2010 às 3:15 PM #

    Acho que o exemplo mais claro de inclusão “social” num conto é o bendito patinho feio…

    Agora fora isso, eu pelo menos vejo malícia e apologia as drogas em diversos contos de fadas e desenhos: vide branca de neve, chapeuzinho vermelho, smurfs, scooby doo, etc…

    • Carol Naumann 20 de Maio de 2010 às 3:27 PM #

      Pois é! Somos inundados de exemplos, sejam bons ou ruins… O problema e o grande desafio é assimilar só o que nos interessa, né? O patinho feio: fato! Tinha esquecido totalmente dele… =*

  4. Babs 20 de Maio de 2010 às 3:41 PM #

    Charols,
    Dica de livro pra continuar no tema, “A psicanálise dos contos de fadas” de Bruno Bettelheim. Ele faz analise enorme sobre todos os principais contos de fadas, apresentando seu verdadeiro significado. Ele mostra as razões, as motivações psicológicas, os significados emocionais, a função de divertimento, entre otas cositas.

    • Carol Naumann 20 de Maio de 2010 às 3:57 PM #

      Sucesso! Anotei e certeza que vou procurar por ele! Obrigada Babs!

  5. elisakobay 20 de Maio de 2010 às 7:10 PM #

    Muito interessante sua reflexão… trabalho coom isto todos os dias, e com certeza, é de extrema importância que se façam reflexões como esta…
    PARABÉNS! Sabe, és uma pessoa especial… mesmo que ainda só conheça virtualmente.
    ps. obrigada pelo comentário no blog. Beijos

    • Carol Naumann 21 de Maio de 2010 às 11:02 AM #

      Estou sempre por lá! =)
      Obrigada pelas palavras de carinho, Elisa!

  6. Karin Jantsch 25 de Maio de 2010 às 4:39 PM #

    Oiii Carol!
    Amei seu blog. Lindo de morrer!
    Tenho 26 anos e sou diabética há três anos. Faço uso da Lantus e da Novorapid. Atualmente tenho pleno controle sobre a debilidade, mas infelizmente passo por momentos de inexplicável tristeza. Bom, faz parte!
    Sobre o que escreveu a respeito dos perfis psicológicos de alguns personagens, é verdada! Pessoalmente acho que essas histórias alimentam nosso ego e nos passam uma mensagem muito positiva. Como se tudo fosse possível.
    Eu me identifiquei com a personagem principal: Alice. Ela não sabe ao certo o que deseja, fica confusa com os comentários dos seus familiares e de pessoas que a rodeam. Incialmente transmite um sentimento de fragilidade e debilidade, mas lá no seu interior há uma força imensurável. Mas ela só descobriu esse “força” quando passa por momentos difíceis. Num mundo onde tudo era “louco”, “demente” e maravilhoso extraiu lições para sua vida. Podemos aprender muito desses contos.
    Um beijo e um doce dia!

    • Carol Naumann 25 de Maio de 2010 às 6:10 PM #

      Karin, que bom que me achou e gostou! Seja sempre bem-vinda! Bom saber do teu controle, e sobre essa tristeza, acho que todos nós sentimos de vez em quando, né? O desafio é não deixar ela dominar! Também me identifico com diversos personagens… Legal isso, né?! Apareça por aqui sempre e mande notícias! Tá? Beijos!

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